19 de abr. de 2013

É questão de fé (ou da ausência dela)




Nesses últimos dias passei por situações  não rotineiras, inusitadas mesmo.  No começo do mês de março nasceu  minha terceira filha, fruto de uma relação breve, intensa, entre dois desconhecidos.  Os mais racionais, os metódicos e certinhos de plantão diriam, de um ato irresponsável de dois adultos infantilizados e inconsequentes. 
 Bem, o fato é que minha filha trouxe uma  alegria indescritível,  e sentimentos adormecidos por  15 anos,revividos e  vivenciados como únicos, ímpar.

Ao saber da gravidez não planejada, já contextualizada, após o susto inicial, agradeci aos céus, a força organizadora do universo, com a certeza e a convicção de quão abençoado sou. Imaginei aqueles casais inférteis, o dia a dia de exames, de indutores de ovulação, de ultrassom diário para a comprovação do rompimento do folículo, os estresses e as rupturas de relacionamentos fragilizados com toda essa situação.
Passados 34 dias após o nascimento dela, meu papai que dias anteriores a agradava com um ovo da páscoa, dava entrada em um hospital, com diagnóstico de aneurisma da aorta abdominal e prognóstico nada animador. Nesse quadro real e representativo da dinâmica misteriosa da passagem transitória e circunstancial da existência humana, é que quero hoje divagar.
 Imaginei a oportunidade que a vida apresentava de reconstrução, de formação e renovação a dois adultos contingenciados por repertórios aprendidos, alguns tatuados com cores vibrantes nas profundezas das entranhas. Amei aquele Ser naquele momento, rejuvenesci.
Nas minhas divagações rotineiras não compreendi e não compreendo até o hoje o porquê do acontecer. Nas minhas crenças intermediárias e central não há lugar para o acaso, creio no determinismo biopsicossocial. Somos determinados bio (geneticamente por nossos pais com as nossas predisposições), psico (existe uma relação da atividade fisiológica e o psiquismo) social (o meio nos influencia constantemente).  Estendendo a visão desse psiquismo, além do conjunto de fenômenos conscientes e inconscientes de um determinado sujeito, a um fluido universal que anima todos os seres vivos, ou ainda na visão de alguns, alma ou espírito, dou continuidade as minhas divagações.
Meu pai ficou internado quase cinco dias, os mais próximos e outros não tão próximos, na intenção de serem solidários ou apenas na repetição impensada e reprodução de frases feitas, diziam: “conte comigo, estou aqui”  “vamos ter fé, que vai dá tudo certo”, “estou rezando (orando) e tenho certeza que Deus vai ouvir minhas preces”, “reze (ore) tenha fé, que para Deus nada é impossível”, “coragem, confiança”, “a fé remove montanhas”.  Não fiz nenhuma oração de pedido!
Ele internado e eu naquele hospital com uma visão multilocular, observando o que se passava ao meu redor. Algumas pessoas idosas, outras nem tanto, algumas crianças, problemas diversos, universos diferentes, um só desejo a cura. 
Uma mãe que teria que enterrar uma filha que não chegou a adolescência vítima do câncer, um grupo de pessoas amontoadas nos bancos, algumas a espera de vagas nas enfermarias do SUS, outras do interior, sem ter para onde ir com familiares internados. E eu pensando, meu pai estava em uma UTI, cercado do carinho da companheira (por amizade e afeto conseguiu permanecer com ele na UTI - meu “morria” de medo de hospital), cercado de cuidados de bons profissionais. Meu pai de classe média, nunca precisou das enfermarias do SUS (INAMPS, INSS) enquanto criança, depois de adulto com um emprego razoável sempre teve plano de saúde, casou, viuvou, casou de novo, teve filhos, netos, sempre saudável, sorriu, entristeceu, acertou, errou . . . Enfim, viveu bem ou mal seus 72 anos.
Pensei,  quantos filhos não conheceram seus pais? Quantos pais não teriam que enterrar seus filhos? Que direito eu tinha para pedir por meu pai? Ele, assim como eu, não era melhor nem pior do que  tantos outros que estavam na mesma situação ou bem piores. Não acredito que Deus “ouça” as preces de seus filhos, ou que as orações e a fé “mude” o inevitável, o que tem que ser será. As orações e a fé só ajudam o próprio sujeito no sentido de trazer consolo, uma falsa sensação de proteção/segurança e esperança. Mistérios insondáveis: o nascer e o morrer.
Ouço muitos as pessoas de uma forma irracional, virem com ditados populares ou frases de efeito, dentre algumas, que religião e fé não se discute. Porque essa inviolabilidade da religião e da fé? O meu posicionamento é que tudo deva ser discutido, esclarecido, a dialética deve ser sempre utilizada, a argumentação, a lógica, a arte do diálogo empregada. A máxima do cristianismo é que a verdade libertará, assim sendo, não creio nessa fé cega, não creio em milagres, nessa repetição de dogmas, repetição de significados, sem ressignificação, não acho saudável essa repetição de comportamentos por preguiça mental de questionar, a acomodação, o medo de se posicionar e assim de se comprometer, no politicamente (in)correto.
A dinâmica da vida é clara, no exato momento que um casal sabe da gravidez, outro recebe um diagnóstico fatal, enquanto o sol nasce nas maternidades e a vida surge, rejuvenescendo, enchendo de júbilos alguns corações, do outro lado ele se põe nos hospitais, sufocando, cristalizando mágoas, encerrando ciclos ou quem sabe, iniciando outros.
            E a verdade é que a  fé é uma hipótese, onde a maioria não admite que não a tem, seja por simples repetição ou quem sabe por medo de ser punido, alguns por considerarem uma heresia a falta dela, outros são chamados a darem testemunho e se esquivam. O fazem também, quando não se conscientizam que a vida é efêmera, que somos frágeis, que vida e morte se completam, e fazem parte de um mesmo ciclo, indefinível, indescritível e insondável que nós seres humanos insistimos em não admitir e aceitar.

Um comentário:

  1. Bom texto.
    Leva a questionar o que seria, de fato, a fé, pois muitas vezes essa fé aparece obscura no discurso das pessoas.
    Ironicamente, em certos casos, alguns discursos se sustentam mais numa "fé na própria fé" do que a possível vivenciação dessa "fé". Isso me leva a outras questões:
    Para se ter fé é preciso vivência-la? Porque, se sim, parece que a fé vai além da auto-afirmação "eu tenho fé". E nesse caso pessoas que se julgam "vazias de fé" podem estar tão enganadas quanto as que afirmam que têm;
    Ter fé é questão de atitude? E o que poderia ser considerado uma atitude de fé?

    ResponderExcluir