9 de mar. de 2012

Livre-arbítrio

Hoje eu vou divagar sobre o viver, o tema é controverso, pois mexe com crenças, valores e a fé de algumas pessoas, gosto da dialética, do bom argumento e do contra-argumento, portanto sintam-se convidados para comentarem, divergirem, contestarem ou concordarem.
Há poucos dias, talvez meses, achava que éramos senhores do nosso destino, dono das nossas escolhas e que muitas vezes nos furtávamos de agir com receio das responsabilidades provenientes delas. 
Que maravilha a possibilidade de mudarmos!  De gosto, de cor, de conceitos, de prioridades, de sonhos e também de opinião. Um certo poeta maluco, cantou “prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião  formada sobre tudo”. E assim defino o tema: livre-arbítrio.
Etimologicamente, livre significa o que tem a faculdade de agir ou não agir, o que não está sujeito ao domínio de outrem, já arbítrio é domínio absoluto dependente apenas da vontade.                                 
Não temos esse tal de livre-arbítrio, temos apenas a ilusão da liberdade, vejamos; certos aspectos históricos evolutivos da visão de homem. No período Cosmológico, antropocentrismo, a realidade era materialista metafísica, homem passivo dominado por forças desconhecidas.
No período Clássico, homem com uma natureza dualista, passivo sob influência da alma.Para Sócrates e Platão o homem era refém das experiências de uma vida anterior, já para Aristóteles preso as suas percepções sensoriais, muitas vezes falhas.
No período Medieval, o Teocentrismo, com ele surge a Escolástica e os dois principais filósofos cristãos Santo Agostinho e Tomás de Aquino.
Santo Agostinho, o bispo de Hipona, aliava a razão e a fé, dizia que o mal que praticamos ou a causa deles era pelo uso do livre-arbítrio, já o mal que sofremos era o justo julgamento divino.
Tomás de Aquino acreditava que sem o livre-arbítrio não tinha sentido a existência (conselhos, preceitos, proibições, prêmios, penas, etc)
Entretanto passeando rapidamente  pela Sagrada Escritura, constatamos o contrário;
- Carta aos Romanos:
 “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero”. (7, 15)
“Nem o querer cabe àquele que quer, nem a corrida a àquele que corre”. (9,16)
- Carta aos Filipenses:
                “ É Deus quem opera em nós o querer e o agir”. (2,13)
- Provérbios:
                “ O coração  do rei está na mão de Deus”. (21,1)
 - Jeremias:
                “ Não está no homem o seu caminho, nem cabe ao homem dirigir seus passos” (10,23)
                “Antes que no seio fôsses formado, eu já te conhecia; antes do teu nascimento eu já te havia consagrado e te havia designado profeta das nações» (Jr 1,5).
- João:
                “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi a vós e vos constituí para que vades e produzais fruto...» (Jo 15,16).
                Continuando depois do período Medieval, considerado o das trevas, pela sujeição da ciência ao jugo da igreja, surge o Renascimento, o Iluminismo, o Humanismo, período antropocêntrico, em voga o cientificismo.
                 Com Jonh Locke a teoria da Tábula Rasa, em oposição ao inatismo de Descartes e ao poder como direito divino. Entretanto esse homem não deixa de ser passivo, agora  refém das suas experiências.
                  Tem uma turma que defende essa causa, a do livre-arbítrio, os existencialistas, para eles a existência precede a essência. Ditam que todos temos o direito de decidir sobre a própria vida e escolher o rumo que considerar mais apropriado. Negam o determinismo, afirmam que "quem nós somos é sempre uma decisão nossa (. . . ) como se a tua vida fosse a tua obra a ser criada".
     Diante do contexto das ciências natrurais, nasceu uma nova ciência na tentativa de conhecer, entender, explicar esse homem, por uma ótica diferente da filosófica, da fisiológica, a Psicologia, com ela surgem os sistemas psicológicos. No Estruturalismo (Wundt),  o paralelismo psicofísico (Fechner) e o homem como ser racional e passivo em relação ao meio, na Psicanálise (Freud) a irracionalidade do homem, passivo em relação aos seus desejos, ao seu inconsciente, no Funcionalismo (W. James) passivo na interação com o meio, . . .  enfim basta de retrospecto histórico.
   Em uma pesquisa realizada em 2008, pelo Centro Bernstein de Neurociência, em Berlim, descobriu que as escolhas de tomadas de decisões por conta própria, não são conscientes, somos reféns do cérebro, dos córtices frontopolar e medial, áreas responsáveis pela tomada de decisões, os cientistas perceberam que cerca de 10 segundos antes, o cérebro antecede a consciência na decisão.
  Ora ser livre ou ter liberdade na minha opinião requer conhecimento de todas as escolhas possíveis e imagináveis, para agir ou não agir, e todos os nossos atos, pensamentos são vinculados ao histórico de vida, as experiências, as crenças, aos valores individualizados por convicções construídas, reforçadas ou não. Arbítrio como domínio absoluto somente na etimologia, somos parciais e subjetivos.
  O que escrevi até agora retrata um homem passivo e a passividade aqui significa a submissão, a subjugação, subserviência ora ao meio, ora a alma (espírito, mente), ora as suas experiências, ora ao inconsciente, aos desejos, ao cérebro  . . . na verdade, ao quê, pouco importa. Temos uma falsa expectativa de liberdade, de discernimento, somos produtos de uma seleção histórica das espécies, em processo contínuo de maturação desde a fecundação, inseridos em um meio cultural onde produzimos as relações e somos escravos delas, em um determinismo social, conduzidos discretamente por opiniões massificadas, momentâneas, temporais, em uma ignorância estimulada. 
Somos ovelhas sem redil e com muitos pastores!