Nesses últimos dias passei por
situações não rotineiras, inusitadas
mesmo. No começo do mês de março nasceu minha terceira filha, fruto de uma relação
breve, intensa, entre dois desconhecidos.
Os mais racionais, os metódicos e certinhos de plantão diriam, de um ato
irresponsável de dois adultos infantilizados e inconsequentes.
Bem, o fato é que minha filha trouxe uma alegria indescritível, e sentimentos adormecidos por 15 anos,revividos e vivenciados como únicos, ímpar.
Ao saber da gravidez não planejada, já
contextualizada, após o susto inicial, agradeci aos céus, a força organizadora
do universo, com a certeza e a convicção de quão abençoado sou. Imaginei
aqueles casais inférteis, o dia a dia de exames, de indutores de ovulação, de
ultrassom diário para a comprovação do rompimento do folículo, os estresses e
as rupturas de relacionamentos fragilizados com toda essa situação.
Passados 34 dias após o nascimento
dela, meu papai que dias anteriores a agradava com um ovo da páscoa, dava
entrada em um hospital, com diagnóstico de aneurisma da aorta abdominal e
prognóstico nada animador. Nesse quadro real e representativo da dinâmica misteriosa
da passagem transitória e circunstancial da existência humana, é que quero hoje
divagar.
Imaginei a
oportunidade que a vida apresentava de reconstrução, de formação e renovação a
dois adultos contingenciados por repertórios aprendidos, alguns tatuados com
cores vibrantes nas profundezas das entranhas. Amei aquele Ser naquele momento,
rejuvenesci.
Nas minhas divagações rotineiras não compreendi e
não compreendo até o hoje o porquê do acontecer. Nas minhas crenças
intermediárias e central não há lugar para o acaso, creio no determinismo biopsicossocial. Somos determinados bio (geneticamente por nossos pais
com as nossas predisposições), psico (existe uma relação da atividade
fisiológica e o psiquismo) social (o meio nos influencia constantemente). Estendendo a visão desse psiquismo, além do
conjunto de fenômenos conscientes e inconscientes de um determinado sujeito, a
um fluido universal que anima todos os seres vivos, ou ainda na visão de alguns,
alma ou espírito, dou continuidade as minhas divagações.
Meu pai ficou internado quase cinco
dias, os mais próximos e outros não tão próximos, na intenção de serem
solidários ou apenas na repetição impensada e reprodução de frases feitas,
diziam: “conte comigo, estou aqui” “vamos ter fé, que vai dá tudo certo”, “estou
rezando (orando) e tenho certeza que Deus vai ouvir minhas preces”, “reze (ore)
tenha fé, que para Deus nada é impossível”, “coragem, confiança”, “a fé remove
montanhas”. Não fiz nenhuma oração de
pedido!
Ele internado e eu naquele hospital com
uma visão multilocular, observando o que se passava ao meu redor. Algumas
pessoas idosas, outras nem tanto, algumas crianças, problemas diversos,
universos diferentes, um só desejo a cura.
Uma mãe que teria que enterrar uma
filha que não chegou a adolescência vítima do câncer, um grupo de pessoas
amontoadas nos bancos, algumas a espera de vagas nas enfermarias do SUS, outras
do interior, sem ter para onde ir com familiares internados. E eu pensando, meu
pai estava em uma UTI, cercado do carinho da companheira (por amizade e afeto
conseguiu permanecer com ele na UTI - meu “morria” de medo de hospital), cercado de cuidados de bons profissionais. Meu pai de
classe média, nunca precisou das enfermarias do SUS (INAMPS, INSS) enquanto criança, depois de
adulto com um emprego razoável sempre teve plano de saúde, casou, viuvou, casou
de novo, teve filhos, netos, sempre saudável, sorriu, entristeceu, acertou, errou .
. . Enfim, viveu bem ou mal seus 72 anos.
Pensei, quantos filhos não conheceram seus pais?
Quantos pais não teriam que enterrar seus filhos? Que direito eu tinha para
pedir por meu pai? Ele, assim como eu, não era melhor nem pior do que tantos outros que estavam na mesma situação ou bem piores. Não
acredito que Deus “ouça” as preces de seus filhos, ou que as orações e a fé
“mude” o inevitável, o que tem que ser será. As orações e a fé só ajudam o
próprio sujeito no sentido de trazer consolo, uma falsa sensação de proteção/segurança
e esperança. Mistérios insondáveis: o nascer e o morrer.
Ouço muitos as pessoas de uma forma
irracional, virem com ditados populares ou frases de efeito, dentre algumas, que
religião e fé não se discute. Porque essa inviolabilidade da religião e da fé? O meu posicionamento é que tudo deva ser
discutido, esclarecido, a dialética deve ser sempre utilizada, a argumentação,
a lógica, a arte do diálogo empregada. A máxima do cristianismo é que a verdade
libertará, assim sendo, não creio nessa fé cega, não creio em milagres, nessa
repetição de dogmas, repetição de significados, sem ressignificação, não acho
saudável essa repetição de comportamentos por preguiça mental de questionar, a
acomodação, o medo de se posicionar e assim de se comprometer, no
politicamente (in)correto.
A dinâmica da vida é clara, no exato
momento que um casal sabe da gravidez, outro recebe um diagnóstico fatal,
enquanto o sol nasce nas maternidades e a vida surge, rejuvenescendo, enchendo
de júbilos alguns corações, do outro lado ele se põe nos hospitais, sufocando, cristalizando
mágoas, encerrando ciclos ou quem sabe, iniciando outros.
E a verdade é que a fé é uma hipótese, onde a maioria não admite que
não a tem, seja por simples repetição ou quem sabe por medo de ser punido, alguns por
considerarem uma heresia a falta dela, outros são chamados a darem testemunho e se esquivam.
O fazem também, quando não se conscientizam que a vida é efêmera, que somos
frágeis, que vida e morte se completam, e fazem parte de um mesmo ciclo,
indefinível, indescritível e insondável que nós seres humanos insistimos em não admitir e aceitar.